
Quando a vi em um canto da sala não me senti muito confortável. Uma intrusa trazida à revelia por minha filha, já que quando fui consultado sobre esta nova hospede permanente, fui categórico: já temos problemas demais. Ela vai ser mais uma razão pra consumir nosso tempo e nosso sossego. Foi tudo em vão. Não me ouviram! Que droga! Passaram por cima da minha autoridade de comandante do lar. Não foi levada em conta a oposição de um pai que se declarava sobrecarregado e, portanto, não tinha fôlego pra administrar qualquer novidade, mesmo que ela pesasse pouco mais de cem gramas e medisse pouco mais de quinze centímetros. Contudo lá estava ela, eu a olhava de viés sem saber onde eu a colocaria dentro de mim, já que ela por força das conseqüências estava dentro da minha casa. O pior é que, quando me dei por entendido, a recém chegada, já tinha nome e endereço. Tchutchuca era nome. O endereço, minha casa. Frente ao que venho narrando, dá pra ver que não era uma dançarina dos bailes funks. Na verdade tratava-se de uma cadelinha da raça pinscher que nos meses que se seguiram revelou-se um instrumento de Deus pra quebrar a monotonia que se instalava, e até mesmo restaurar a alegria do nosso lar cristão. Dizem que depois de quatro décadas vividas o ser humano descobre que os animais são anjos que descem dos céus pra nos fazer companhia ou mesmo alegrar nossas vidas. Pode até ser verdade. Só que o termo “anjo” nem sempre combina com nossa tchutchuca. A grosso modo posso dizer que ela algumas vezes é quase o oposto disso. Tchutchuca é fujona, devoradora de tudo que possa ser devorado, sobe no sofá com as patas sujas de barro do jardim, além de não deixar ninguém sossegado. Apesar de tudo nós nos apaixonamos por ela. Pois é! Estou me incluindo nesta lista de fãs. Logo eu que fui declaradamente contrário a esta adoção. Você pode estar pensando: Se ela é problema como pode ter fãs. A questão é autenticidade. É pureza. É dar muito sem pedir nada em troca. Eu mesmo gostaria de receber minha esposa e meus filhos no portão sempre de maneira festiva como faz tchutchuca todos os dias. Pra nós, a festa que ela faz todos os dias no portão, diante da nossa chegada, não chega ser novidade. Mas pra ela, a nossa chegada é sempre uma apoteose. É sempre algo novo, digno de uma grande festa. E quando chega um desconhecido?! Aí é encrenca na certa. A reação é fulminante. Que fera!!!! Defender a família passa ser prioridade absoluta. Mesmo que seu oponente pese setenta vezes mais. Sim porque tchutchuca pesa hoje pouco mais de um quilo, isto de estomago cheio. Como tenho aprendido com ela. Como tenho a aprender com o silêncio do seu olhar atento. Como tenho a aprender com sua fidelidade grata e inegociável. Basta um pequeno gesto de algum membro da nossa família, pra ela se colocar de pé como quem diz: “eis-me aqui pra te fazer feliz”. Às vezes perdemos a paciência com ela, afinal ninguém é de ferro. Quando isto ocorre, ela, frente ao seu precário entendimento, afasta-se humilhada com certeza sem saber onde de fato errou. Contudo, basta que quem a humilhou tenha um pequeno gesto de aprovação, pra no minuto seguinte ela exercitar o perdão como ninguém. Perdoa e com certeza se perdoa também, porque quem não se perdoa se trava. E ela se destrava por pouco. O que passou, passou, o que há pela frente é o que importa. Afinal errar é humano. Opss!! Canino. Pois é! Na verdade tchuchuca não é muito diferente dos demais cachorros que estão por aí aos milhares. Ontem mesmo eu observava na rua um cão pulguento e visivelmente faminto agitando a calda alegremente com se fome e pulgas fosse apenas um “detalhe insignificante” diante da grandeza da vida. Sendo assim, se ver sua família feliz não é sua prioridade, se você não os defende com unhas e dentes, se você não tolera mais as pulgas da vida, se você não se perdoa e por isto não perdoa os outros. Se você acha que os seres humanos não merecem créditos. Que tal aprender com os cachorros como eu tenho aprendido. Talvez haja algo realmente divino neles.


